Aventura com tubarões na Polinésia Francesa proporciona um mergulho inesquecível

Marina Guedes
De Fakarava, Polinésia Francesa

O atol de Fakarava, na Polinésia Francesa, entraria facilmente na lista de roteiros imperdíveis em publicações do tipo “Destinos incríveis para se conhecer durante a vida”. Nunca li nenhum do gênero, mas a experiência que vivi lá, recentemente, mergulhando com centenas de tubarões, trouxe-me uma certeza: o local é realmente fantástico.

A logística para chegar naquele paraíso não é fácil. Os esforços, porém, valem a pena. A opção mais comum é de avião, com deslocamentos que geralmente incluem roteiros via costa Oeste dos Estados Unidos, em Los Angeles. Depois, outra parada no Tahiti e, finalmente um trecho de cerca de uma hora até o atol, situado no conjunto de ilhas (arquipélago) denominado Tuamotu.

Uma outra opção – como foi o meu caso – é ir de barco, em um veleiro. Mas é preciso muito mais tempo, pois somente a travessia do Panamá até as Marquesas (arquipélago que também faz parte da Polinésia Francesa) levou quase 24 dias direto, ao longo de 8 mil quilômetros pelo oceano Pacífico. Depois, mais um mês visitando outros atóis de Tuamotu, para finalmente chegar no de Fakarava.

Ansiedade

A cada vez que conhecia algum velejador que já tinha passado por Fakarava, a ansiedade aumentava. Todos afirmavam que “mergulhar com tubarões era imperdível”. Para minha alegria, fui além: aproveitei a ocasião para, finalmente, fazer um curso de mergulho e obter a certificação modalidade mar aberto até 25 metros.

Durante três dias, não deixava de pensar no incrível privilégio que era estar lá. Diferentemente dos cursos de mergulho tradicionais – que são realizados em piscina ou ambientes fechados até o dia do “batismo”, quando o aluno vai para o mar – as minhas aulas foram em um cenário de mar com água cristalina, recifes de corais, arraias, inúmeras espécies de peixes coloridos e, claro, muitos tubarões.

No início, admito: foi complicado prestar atenção nas instruções de Laurent Mayer, instrutor francês que me passou os conceitos teróricos e práticos. Não apenas por conta de seu sotaque (quando falava em Inglês comigo, já que não domino o idioma dele), mas, principalmente, pelos atrativos externos: vários tubarões de médio porte circulavam ali, bem ao nosso lado.

Para espantar o medo, me lembrava do conselho que ouvira, poucos dias antes, de outro mergulhador profissional: “eles (tubarões) não gostam das bolhas que se formam quando expiramos o ar através do equipamento de mergulho”. Assim, podem imaginar que, toda vez que algum se aproximava de mim, expirava “com vontade” pelo regulador de ar, torcendo para que perdessem o interesse.

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Desfile embaixo d´água

Um dos momentos mais marcantes ocorreu no segundo dia do curso, quando, a 16 metros de profundidade, avistei um grupo de arraias pintadas. Alguns tubarões curiosos também passeavam por ali. Era a primeira vez que nadava embaixo deles, numa perspectiva diferente da que estava acostumada, quando os via de cima.

Em Fakarava não é preciso atingir grandes profundidades para encontrar tubarões. Na pousada Tetamanu – onde fica a escola de mergulho – vários costumam nadar na parte rasa, aguardando “presentes” que sobraram das refeições. Mas é a partir de 20 metros de profundidade que se concentra a maior quantidade deles, na entrada ao Sul que dá acesso ao atol.

No terceiro e último dia de curso, quando descemos a quase 30 metros, presenciei uma verdadeira apresentação aquática: por causa da maré que entrava, uma forte correnteza se formava. E lá estavam centenas de tubarões, passeando, como em um desfile de escola de samba, silencioso, claro. Segurando-me nos corais ao chão para não ser levada pela correnteza, permaneci ali, apreciando aquele espetáculo que tinha como fundo um azul hipnotizante. Fora da água, no caminho de volta ao barco, o desfile que tive a oportunidade de apreciar, momentos antes, permaneceu forte na memória. Um espetáculo inesquecível!

Polinésia Francesa

Situada ao Sul do oceano Pacífico, a região fica entre a Nova Zelândia e América do Sul. Território extrangeiro pertencente à França, ocupa uma área do tamanho da Europa, espalhada ao longo de 4.200 quilômetros quadrados. Francês é o principal idioma, sendo que cada arquipélago possui diferentes dialetos.

Em números

Cinco arquipélagos (ou conjunto de ilhas) formam a Polinésia Francesa: Marquesas, Tuamotu, Ilhas da Sociedade, Gambier e Austrais. Tuamotu é formado apenas por atóis, 76 no total. Destes, 46 são habitados. Fakarava é o segundo maior, ficando atrás apenas de Rangiroa.

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Curiosidade

No início dos anos 60, a França iniciou um programa de testes nucleares na parte sul do Arquipélago de Tuamotu, nos atóis de Moruroa e Fangataufa. Felizmente, a iniciativa foi interrompida em 1996. Por questão de segurança em razão do risco de contaminação por elementos radiotativos, o acesso a estas localidades é proibido. O turismo é a principal atividade econômica da Polinésia Francesa. O cultivo de pérola negra e produtos a partir do coco também são fortes na região.

O que é um atol?

Atol é uma formação de origem biológica. Geralmente recifes, predominantemente de corais e outros invertebrados (como é o caso dos da Polinésia).Também podem ser recifes de algas calcárias e outros invertebrados, como é o caso do Atol das Rocas, no Brasil. Eles se formam e crescem ao redor de uma ilha oceânica, cujo topo vai afundando, restando apenas os recifes em forma de anel, que hoje são chamados de atol.

Um fenômeno que impressiona

Para Guilherme Longo, professor da UFRN, a concentração de tubarões em Fakarava é impressionante. “Considerada a maior do mundo, sua ocorrência está ligada ao isolamento geográfico, que reduz muito o impacto humano direto sobre os peixes e recifes da região. Como resultado, todos os anos, milhares de garoupas (peixe de alto valor comercial e muito consumido mundialmente) vindas de regiões próximas, se encontram para reproduzir, na famosa passagem do atol de Fakarava. Essas agregações reprodutivas de garoupas são verdadeiros banquetes para os tubarões, e justamente o que os mantem em Fakarava. Um estudo recente aponta que, na ausência dessas agregações que reunem peixes de localidades próximas, os recifes de Fakarava sozinhos provavelmente não conseguiriam prover comida suficiente para tantos tubarões. Este fenômeno incrível que ocorre em Fakarava é um grande exemplo de como espécies e ecossistemas estão conectados de maneira dinâmica e o quanto são vulneráveis aos impactos humanos. ”

SERVIÇO

Tetamanu Diving Center: Escola de mergulho e Pousada em Fakarava: www.tetamanuvillage.pf

Como chegar: Companhia aérea que faz voo do Tahiti para o atol de Fakarava: Air Tahiti. Há voos quase todos os dias da semana, em diferentes horários. Cada mergulho custa, em média, 70 dólares. O curso de mergulho nivel 1, com 4 mergulhos custa, aproximadamente, U$ 600.

Outras escolas de mergulho no atoll de Fakarava: Kaina Plongée; O2 Fakarava; Dive Spirit Fakarava; Top Dive

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